Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.
Clarice Lispector
sábado, 19 de setembro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
FELICIDADE REALISTA
A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar É importante pensar-se ao extremo, buscar lá d entro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade
Mario Quintana
Mario Quintana
Clarice por Clarice 8
“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”
Clarice Lispector
Precisão
O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
Precisão
O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um não. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um não. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa
Tabacaria
TABACARIA (15-1-1928 )
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.
0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
In Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.
0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
In Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
A loucura interrompida nas malhas da subjetividade
O autor vai abordar questões referentes ao processo de reforma psiquiátrica em curso no país no que diz respeito à transformação das estruturas asilares e das práticas de cuidados para com a loucura.
A partir de uma discussão de loucura e subjetividade numa perspectiva ético-estética-política vai levantar questões contextuais sobre mudanças de funções sociais, tais como as de hospitais ao longo dos anos, que num primeiro momento eram instituições de caridade e que aos poucos se tornaram uma “terceira ordem de repressão” onde todos aqueles que não eram aceitos socialmente dentro de um determinado padrão moral ou que causavam algum perigo eram internados, isolados. Buscava-se com este confinamento produzir um sujeito dócil politicamente com forças econômicas, afetivas e morais que se agregassem ao capital (Rosa, 1997).
Através do trabalho de Pinel a Psiquiatria nasce como reforma, seguindo os ideais de libertação e modernização da Revolução Francesa e acompanhando o surgimento da declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Desta forma, a psiquiatria pineliana vai trabalhar com a idéia de um tratamento moral calcado na crença do estabelecimento da cura mental. A experiência da loucura passa a ser encoberta pelo discurso psiquiátrico anátomo-patológico, ao invés de ser mais revelada, ou melhor, conhecida. Trata-se apenas de um significado: doença mental, não se levando em conta o sujeito e suas especificidades.
O dispositivo manicomial oferece referências identitárias que se apresentam como limitadas, homogêneas, patologizadas, produtoras da alienação.
Após o período das guerras mundiais os Estados modernos tomaram a responsabilidade de intervir nos problemas sociais e reconstruir o que havia sido devastado. Em alguns países a desinstitucionalização transfigurou-se em uma desospitalização intervindo no ideal psiquiátrico de uma superação gradativa do manicômio.
É nesta época também que vai ocorrer o refinamento na produção de psicofármacos (a partir da década de 1950), permitindo assim novas formas de tratamento sem a necessidade de enclausuramento manicomial. Pode-se acrescentar a isto a criação de ambulatórios e outras estratégias assistenciais que materializam a possibilidade de gerir a terapêutica sem necessariamente ocorrer nos manicômios.
Deste processo pode-se agrupar os serviços especializados em três tipos: o modelo médico (administração de psicofármacos), modelo de auxílio social (busca agir sobre as condições materiais das pessoas) e o de escuta terapêutica (psicoterapia).
Em se tratando do Brasil, temos fortes entraves para o processo de desinstitucionalização, onde se observa uma ênfase desproporcional no financiamento público das ações de hospitais psiquiátricos, enquanto os serviços de atenção diária, substitutivos ou outros dispositivos extra-hospitalares apenas dispõe de cerca de 10% desse montante, além da falta de recursos humanos e a não redução da ocupação de leitos em hospitais psiquiátricos.
O autor procede sua investigação sob um prisma em que a Reforma Psiquiátrica não se restringe à humanização das relações com os portadores de sofrimento mental ou modernização tecnocientífica dos serviços, mas diz respeito à construção de um novo lugar social para a loucura, novas formas de lidar com a diferença.
A contemporaneidade aciona um complexo agenciamento “capitalístico” que atua pelo empobrecimento do nosso repertório subjetivo (economia do desejo) na media em que expiamos a loucura para os doentes mentais. Pelbart argumenta que o louco, enquanto um personagem social produzido pelo saber médico e psicológico do séc. XVII, recebeu o encargo simbólico de corporificar a loucura (1990). Apesar das significativas transformações quanto ao trato com a loucura, o autor chama atenção para uma dimensão que paralelamente obstrui novos avanços, o que se trataria dos nossos “desejos de manicômio” (Machado e Lavrador, 2001).
Ainda nos dias de hoje a loucura tem sido potencializada como diferença, identificada como erro e descontrole sem se considerar o sofrimento concreto destas pessoas, imaginando-se desnecessário algum tipo de atenção.
Existem diversos desafios da gestão de uma rede de atenção em saúde mental (SM) para o cuidar em liberdade, entre eles investimentos insuficientes, aumento da demanda, diminuição ainda tímida dos gastos com internação psiquiátrica, poucos serviços substitutivos e um imaginário social calcado no preconceito/rejeição em relação à loucura.
Também são diversos os avanços da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Na discussão do campo, a trajetória recente desta reforma pode ser definida e conduzida pela noção de cidadania, no momento em que há o reclame da cidadania do louco, o movimento desdobrou-se em um amplo e diversificado escopo de práticas e saberes (Tenório, 2002: 30).
A autonomia também é um lugar de destaque neste movimento e freqüentemente é considerada o que de mais importante o processo de tratamento tem a produzir. É uma representação imediata da liberdade humana. É um valor que qualifica e caracteriza o humano e afirma o indivíduo como um princípio (Leal, 2001).
O autor vai dizer que se trata de uma luta pela emancipação, não meramente política, mas antes de tudo uma emancipação pessoal, social, cultural que permita, entre outras coisas, o não-enclausuramento de tantas formas de existência banidas do convívio social.
São levantadas também questões referentes às instituições de cuidados em saúde mental, que seriam um deslocamento do modelo assistencial do manicômio para o território. e vai dizer que tais serviços se constroem a partir da noção de que o cuidado nesta área requer uma ampliação “no sentido de ser também uma sustentação cotidiana da lida diária do paciente, inclusive nas suas relações sociais” (Tenório, 2002: 31-32). “Consistem em uma ampliação tanto da intensidade dos cuidados quanto de sua diversidade, ou seja, condições inexistentes nos ambulatórios e hospitais psiquiátricos” (Goldberg, 1994).
È importante que estes serviços “engajem tanto os níveis mais singulares da pessoa quanto os níveis mais coletivos” (Costa-Rosa, Luzio e Yasui, 2003).
As cidades são pensadas como imensas máquinas produtoras de subjetividade por meio de equipamentos materiais e imateriais.
Temos que considerar que as novas modalidades terapêuticas não garantem, por si mesmas, a superação do desejo que carregamos de exclusão e de exploração (desejo de manicômios).
Se faz necessário um trabalho de desmistificação da loucura e de preparação dos agentes cuidadores e da sociedade como um todo para que seja possível a promoção de autonomia, inclusão social e aceitação no convívio social das pessoas portadoras de sofrimento mental.
Desinstitucionalizar não tem fim, não tem modelo ideal, precisa ser inventado incessantemente. Trata-se de um exercício cotidiano de reflexão e crítica sobre os valores estabelecidos como naturais ou verdadeiros, que diminuem a vida e reproduzem a sociedade excludente na qual estamos inseridos. Trata-se de um outro modo de estar na vida e, como tal, de produzir práticas em saúde.
É preciso construir a nós mesmos como sujeitos éticos: ampliar o exercício da invenção, da inconformação, da transformação, da transformação, de ativação de coeficientes de resistências. É não só criar equipamentos, equipes e serviços, mas desenvolver outras práticas culturais, outras formas de sentir, de viver, de amar, onde a loucura deixe de ser exterior a nós e possa ser sentida como própria à vida.
O artigo trata de questões culturais, estruturais, formas de pensamento e visões enraizadas quanto à loucura e as formas de cuidado em saúde mental. É importante que o interessando em atuar nesta área conheça a história da loucura e os movimentos da reforma psiquiátrica. É importante que leve em consideração o sujeito portador do sofrimento mental, suas questões, aflições e dificuldade. È possível encontrar formas de interação e novas formas de inclusão, até que se consiga uma transformação na forma de se encarar a loucura. Talvez uma forma que não assuste tanto, que não a deixe tão exteriorizada.
Porque não construir uma teoria da subjetividade? (Suely Rolnik)
Um exemplo de cidades subjetivas são os CAPS.
(resumo de Adriana, Vitor,Joyce)
A partir de uma discussão de loucura e subjetividade numa perspectiva ético-estética-política vai levantar questões contextuais sobre mudanças de funções sociais, tais como as de hospitais ao longo dos anos, que num primeiro momento eram instituições de caridade e que aos poucos se tornaram uma “terceira ordem de repressão” onde todos aqueles que não eram aceitos socialmente dentro de um determinado padrão moral ou que causavam algum perigo eram internados, isolados. Buscava-se com este confinamento produzir um sujeito dócil politicamente com forças econômicas, afetivas e morais que se agregassem ao capital (Rosa, 1997).
Através do trabalho de Pinel a Psiquiatria nasce como reforma, seguindo os ideais de libertação e modernização da Revolução Francesa e acompanhando o surgimento da declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Desta forma, a psiquiatria pineliana vai trabalhar com a idéia de um tratamento moral calcado na crença do estabelecimento da cura mental. A experiência da loucura passa a ser encoberta pelo discurso psiquiátrico anátomo-patológico, ao invés de ser mais revelada, ou melhor, conhecida. Trata-se apenas de um significado: doença mental, não se levando em conta o sujeito e suas especificidades.
O dispositivo manicomial oferece referências identitárias que se apresentam como limitadas, homogêneas, patologizadas, produtoras da alienação.
Após o período das guerras mundiais os Estados modernos tomaram a responsabilidade de intervir nos problemas sociais e reconstruir o que havia sido devastado. Em alguns países a desinstitucionalização transfigurou-se em uma desospitalização intervindo no ideal psiquiátrico de uma superação gradativa do manicômio.
É nesta época também que vai ocorrer o refinamento na produção de psicofármacos (a partir da década de 1950), permitindo assim novas formas de tratamento sem a necessidade de enclausuramento manicomial. Pode-se acrescentar a isto a criação de ambulatórios e outras estratégias assistenciais que materializam a possibilidade de gerir a terapêutica sem necessariamente ocorrer nos manicômios.
Deste processo pode-se agrupar os serviços especializados em três tipos: o modelo médico (administração de psicofármacos), modelo de auxílio social (busca agir sobre as condições materiais das pessoas) e o de escuta terapêutica (psicoterapia).
Em se tratando do Brasil, temos fortes entraves para o processo de desinstitucionalização, onde se observa uma ênfase desproporcional no financiamento público das ações de hospitais psiquiátricos, enquanto os serviços de atenção diária, substitutivos ou outros dispositivos extra-hospitalares apenas dispõe de cerca de 10% desse montante, além da falta de recursos humanos e a não redução da ocupação de leitos em hospitais psiquiátricos.
O autor procede sua investigação sob um prisma em que a Reforma Psiquiátrica não se restringe à humanização das relações com os portadores de sofrimento mental ou modernização tecnocientífica dos serviços, mas diz respeito à construção de um novo lugar social para a loucura, novas formas de lidar com a diferença.
A contemporaneidade aciona um complexo agenciamento “capitalístico” que atua pelo empobrecimento do nosso repertório subjetivo (economia do desejo) na media em que expiamos a loucura para os doentes mentais. Pelbart argumenta que o louco, enquanto um personagem social produzido pelo saber médico e psicológico do séc. XVII, recebeu o encargo simbólico de corporificar a loucura (1990). Apesar das significativas transformações quanto ao trato com a loucura, o autor chama atenção para uma dimensão que paralelamente obstrui novos avanços, o que se trataria dos nossos “desejos de manicômio” (Machado e Lavrador, 2001).
Ainda nos dias de hoje a loucura tem sido potencializada como diferença, identificada como erro e descontrole sem se considerar o sofrimento concreto destas pessoas, imaginando-se desnecessário algum tipo de atenção.
Existem diversos desafios da gestão de uma rede de atenção em saúde mental (SM) para o cuidar em liberdade, entre eles investimentos insuficientes, aumento da demanda, diminuição ainda tímida dos gastos com internação psiquiátrica, poucos serviços substitutivos e um imaginário social calcado no preconceito/rejeição em relação à loucura.
Também são diversos os avanços da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Na discussão do campo, a trajetória recente desta reforma pode ser definida e conduzida pela noção de cidadania, no momento em que há o reclame da cidadania do louco, o movimento desdobrou-se em um amplo e diversificado escopo de práticas e saberes (Tenório, 2002: 30).
A autonomia também é um lugar de destaque neste movimento e freqüentemente é considerada o que de mais importante o processo de tratamento tem a produzir. É uma representação imediata da liberdade humana. É um valor que qualifica e caracteriza o humano e afirma o indivíduo como um princípio (Leal, 2001).
O autor vai dizer que se trata de uma luta pela emancipação, não meramente política, mas antes de tudo uma emancipação pessoal, social, cultural que permita, entre outras coisas, o não-enclausuramento de tantas formas de existência banidas do convívio social.
São levantadas também questões referentes às instituições de cuidados em saúde mental, que seriam um deslocamento do modelo assistencial do manicômio para o território. e vai dizer que tais serviços se constroem a partir da noção de que o cuidado nesta área requer uma ampliação “no sentido de ser também uma sustentação cotidiana da lida diária do paciente, inclusive nas suas relações sociais” (Tenório, 2002: 31-32). “Consistem em uma ampliação tanto da intensidade dos cuidados quanto de sua diversidade, ou seja, condições inexistentes nos ambulatórios e hospitais psiquiátricos” (Goldberg, 1994).
È importante que estes serviços “engajem tanto os níveis mais singulares da pessoa quanto os níveis mais coletivos” (Costa-Rosa, Luzio e Yasui, 2003).
As cidades são pensadas como imensas máquinas produtoras de subjetividade por meio de equipamentos materiais e imateriais.
Temos que considerar que as novas modalidades terapêuticas não garantem, por si mesmas, a superação do desejo que carregamos de exclusão e de exploração (desejo de manicômios).
Se faz necessário um trabalho de desmistificação da loucura e de preparação dos agentes cuidadores e da sociedade como um todo para que seja possível a promoção de autonomia, inclusão social e aceitação no convívio social das pessoas portadoras de sofrimento mental.
Desinstitucionalizar não tem fim, não tem modelo ideal, precisa ser inventado incessantemente. Trata-se de um exercício cotidiano de reflexão e crítica sobre os valores estabelecidos como naturais ou verdadeiros, que diminuem a vida e reproduzem a sociedade excludente na qual estamos inseridos. Trata-se de um outro modo de estar na vida e, como tal, de produzir práticas em saúde.
É preciso construir a nós mesmos como sujeitos éticos: ampliar o exercício da invenção, da inconformação, da transformação, da transformação, de ativação de coeficientes de resistências. É não só criar equipamentos, equipes e serviços, mas desenvolver outras práticas culturais, outras formas de sentir, de viver, de amar, onde a loucura deixe de ser exterior a nós e possa ser sentida como própria à vida.
O artigo trata de questões culturais, estruturais, formas de pensamento e visões enraizadas quanto à loucura e as formas de cuidado em saúde mental. É importante que o interessando em atuar nesta área conheça a história da loucura e os movimentos da reforma psiquiátrica. É importante que leve em consideração o sujeito portador do sofrimento mental, suas questões, aflições e dificuldade. È possível encontrar formas de interação e novas formas de inclusão, até que se consiga uma transformação na forma de se encarar a loucura. Talvez uma forma que não assuste tanto, que não a deixe tão exteriorizada.
Porque não construir uma teoria da subjetividade? (Suely Rolnik)
Um exemplo de cidades subjetivas são os CAPS.
(resumo de Adriana, Vitor,Joyce)
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